Exórdio
Para inicio de conversa
Marco
Aurélio Baggio
Alguns amigos
pediram para que publicasse na Revista do Centenário preceitos e elucubrações
que venho depurando.
Privilegiados
leitores:
A sociedade justa é
a barreira, o baluarte que nos defende da brutalidade da natureza e nos protege
da disrupção causada pela biologia degenerada, de que é dotada parcela da
humanidade.
A sociedade civil é
o edifício apolíneo que suplanta e prevalece sobre a barbárie que insurge,
insistente, em toda parte. É a organização social que contém o caos que se
manifesta na natureza. Seus dispositivos de contenção – policiais, jurídicos,
psiquiátricos, assistenciais e outros, é que fazem contraponto à delinquência e
ao crime.
O assassinato mora
no coração do homem. A espécie Homo
sapiens sapiens ainda não se extinguiu pelo fato de que, mais poderoso,
vigora o mandato: - Não matarás!
A superpopulação, no
entanto, força e arromba o tecido social e, de alguma forma medonha, torna a
vida humana uma coisa barata e descartável.
É no âmbito da
sociedade organizada que vicejam os homens
bons, cordos, aqueles, exatamente, que passam a empregar suas impulsões
para as nobres finalidades indicados pelo nous
- pelo intelecto.
Esse inventa
tecnologias que expandem o conforto e ampliam o modo de ser dos homens.
Inteligência cria cultura, essa dimensão excelsa que compassa a amena e boa
convivência entre tantos iguais – desiguais.
A cultura torna-se
uma calda, um meio que permite o salutar estar junto com tantos, irmanados em
fazeção do bem comum.
A indiferença da
sociedade capitalista afluente para com os pobres – os deserdados da terra, os
ofendidos e os humilhados, os insultados e os despossuídos de qualquer dotação
-, sua negação de quinto sexto avos da humanidade, torna a sociedade
capitalista injusta, indigna e, no limite, sombria.
Em uma sociedade
que, ao final, tem excesso de tudo: de alimentos, de crimes, de carros, de
bebidas e de drogas, de repolho e de pôr–do–sol, de recordes, de lixo, de
bugigangas e de eletrônicos, e, também, de dinheiro entesourado, até sobra o
amor a bom mercado.
Falta o quê? Tantos indivíduos, tanta gente sobrenadando
em movimento browniano, gastando o tempo e a vida fútil, inutilmente. Falta
cola, falta cimento, falta o bom aglomerante que faça a junção bem articulada
dos muitos componentes que são as partes constituintes do ser humano. Esse
ligante, do qual carecemos em quantidade suficiente, é a cultura.
Nela comparece o
fato de que integrar-se e relacionar-se é amarrar diferenças e, às vezes, até,
solucionar contradições.
Somente o Eu
criativo compõe possibilidades e incompatibilidades, produzindo o novo, o belo
e o útil. Assim, possibilita a expansão da autoconsciência do sujeito.
Consciência é o todo momentâneo, incisivo e arguto, de nossa vida psíquica.
É ela – a
consciência lúcida e instrumentada – que empregamos para arrostar e superar os
escolhos, as vicissitudes e as descortesias com que nos trata a vida.
É o desejo de ser
criativo e explicito que nos arranca de nossa atávica tendência ctônica à
mesquinharia e nos impede, decisivamente, que façamos o mal ao próximo.
A cultura utiliza-se
de três grandes ingredientes. A saber:
A realidade, que primeiro se impõe ao
sujeito e que se apresenta tantas vezes como ordem fundamentalista ou como
lógica de imanência – a terra, a honra, o mercado, o rei, a guerra, o deus, o
existencialismo, o socialismo, a história, a ciência, o nada, a revolução, o
espetáculo, - entre tantas outras lógicas já derruídas. Tais ofertas de realidade sempre se apresentaram
como capazes de abranger toda a complexidade da vida humana. É hora de
desacreditarmos de todas estas propostas de imanência, uma vez que cada uma
delas aparecem em um ciclo de surgimento, moda, crescimento, acreditamento,
seguido de decadência. O que sobra de cada uma delas é um pálido resíduo que se
torna um mero componente de uma complexidade. Esta sim, uma lógica que talvez
nos permita compreender o que é a missão da vida sobre o planeta: subsistir e
complexificar-se.
A realidade é quarta instância psíquica.
Sólida como uma parede, no entanto, tantas vezes ela cede, desaba, desmancha-se
no ar.
A verdade é dama de muitas faces, sempre
requestrada, comparece em sua variabilidade constante. O Ocidente constituiu-se
com o maior dos filósofos. Platão estabeleceu o ideal da busca da verdade como
o centro de seu sistema. Está-se a constatar, com tristeza, que a verdade é
sempre parcial e provisória. Ela se apresenta sempre como uma brilhante
configuração de caleidoscópio.
A liberdade, maior dotação do Ocidente a
seus cidadãos é, na bem apanhada formulação de Lope de Vega el bien mayor de la espaciosa tierra.
Cada qual emprega a
franja de liberdade de que é dotado para validar a força de sua vontade de
fazer acontecer o bem comum.
A liberdade é o
recurso de esperteza e de movimentação que dispomos para driblar as aprontações
do Destino – seja ele Moira – destino
pessoal caracterológico inexorável -; seja ele Ananké - poder
irresistível das leis da natureza -; seja ele Nêmesis - deusa da vingança e da justiça distributiva, guardiã da
ordem universal -; seja ainda, Eris,
a azougue menina diabrete dispersora malévola de tudo, deusa da discórdia e da
sedução corruptiva.
É ela, a cultura,
que como um cadinho, acolhe esses todos componentes díspares, os mistura e
coze, e deles todos debocha e transforma em tempero. Em panela da pobre
humanidade, em panela que acolhe os pobres negócios humanos, quase tudo quanto
há é tempero.
A vida é dádiva a
nós doada graciosamente. É tão extraordinária quanto declinante.
Sabe-se que na vida
muito é para ser suportado, pouco para ser desfrutado.
Ser complexo, o
homem é sujeito e objeto de sua própria busca. Só a ingentes esforços torna-se,
eventualmente, plenificado. Este, aliás, a meu ver, é o objetivo de sua vida.
Realizar suas boas potencialidades é o que o capacita a comandar a si e fazer a
massa do mundo rodar, para cumprir os bons desejos da gente.
Nossa cognição
tornada nous - intelecto, guia nossas
impulsões através do ethos – tomada
de atitude diante da vida – da consciência moral rumo ao bom proceder ético.
É assim que,
apolíneos, dotados de seta, de intenções retas e de visão aérea, esguichamos em
poesia, em ficção, em literatura, em arte, em civilidade. Em cultura, por
definição.
Sim, pois o que
realmente importa a cada um, dotado de uma natureza irascível e indócil é:
- Como gerir a própria vida?
A natureza é um
espetáculo incessante de comidos e de comedores. Ela é uma cadela cruel, nossa
inexorável inimiga, situada no interior de nossa mesmidade. No fim, termina nos
vencendo.
Nosso dever ao viver
é protelar, tanto quanto possível, sua chacina.
Por isso, aprendemos
que a função do amor é abrandar a crueldade das fatalidades. As delicias e as artes do amor podem,
por vezes, corrigir os desaires da natureza.
O principal recurso
de que dispomos para aquietar as estupidezes do destino e compassar os
desacertos da natureza é sermos bondosos uns com os outros.
Para isso, somos
forçados a abdicar de nossa crença na imortalidade. Temos que elaborar todo o
desacorçoante peso de nossa carnal e mortal condição.
Essa é, a meu
critério, a sexta mutilação narcisica que sofremos. E assim, coxos temos de
continuar vivendo com decência e dignidade. Sabemos que estamos sós em um
Universo frio, infinito e indiferente às nossas ilusões.
A vida em um mundo
superpovoado de despossuídos é um drama, onde insurge a atração à práticas
barbarizantes. Nós, os homens bons, batizados nas águas da cultura,
buscamos refazer as teias e reatar os vínculos, construindo a decência social
por meio de ações inteligentes que dignificam as pessoas.
Se a política é sem
entranhas, se a política é inconsistente e ainda, se a política é desumana,
como querem sérios autores, temos que dispor de homens capazes de tornar
decisões com base no mérito do caso particular em pauta.
Temos, sobretudo, a
obrigação de sermos otimistas, de acreditar que o ser humano é perfectível.
Apesar da
onipresença do crime, as coisas funcionam na sociedade, porque mãos hábeis e
cabeças virtuosas fazem escolhas acertadas. Derivada do caos, para além dele, a
ordem acaba restaurando-se. Mesmo
que provisória e precariamente.
Temos que encontrar
e oferecer amplos canais para expressar as emoções negativas que pululam em
nosso infernal mundo interno.
O homem é bicho–mau
que, deixado a seu próprio alvedrio, desprovido de controles sociais, e sem um
arguto superego internalizado, precipita-se em uma regressão à sordidez
barbárica. Os corpos jovens, atassalhados e malaxados numa via, num morgue...
Enchendo uma fria estatística, são os clamorosos testemunhos disso. A
infantaria sempre paga um preço maior nos embates de qualquer ordem.
A identidade do
indivíduo/pessoa viceja com o conflito e com a oposição que encontra. A
consistência, o estofo da pessoa é feito de lutas pessoais internas.
A repressão sexual é
necessária pois cria significado e propósito. Já a repressão da agressividade
dispersa cria conduta adequada e construtiva.
A liberação sexual,
nosso enganoso milagre, obtido a partir dos anos sessenta, termina em torpor,
lassidão e inércia. E também em dissolução dos costumes. A liberdade indócil é
domada pela própria desgraça.
Toda competição com o destino – não
importa o resultado – é divina. Quando
não se bebe nas capitosas fontes da cultura, a vida ensina com pancada, com
violência, de forma aleatória e não sistemática. Caluda para não vir a ser
você, homem, um ser em ruínas. Pois até o bem, quando sobe ao próprio excesso,
morre por ser demais. E bala é só um pedacinho de metal.
É necessário
trabalhar para dar à luz a seu próprio pai na sua adultez madura.
Os únicos que serão
lembrados são aqueles que foram grandes na proporção da grandeza daquilo com
que lutaram.
O capitalismo nos
convida e nos envolve com suas tentadoras ofertas sedutivas, caprichando em nos
tornar meras máquinas digestórias de entropia. Quer nos tornar seres
ruminantes, dotados de quatro estômagos
- pança, barrete, folhoso, coagulador -,para digerir... consumo
conspícuo e lixo midiático.
Disso resistimos,
postados no centro da corrente do rio das humanidades, seres de aspiração
transcendentais que somos.
Cervantes,
Shakespeare, Montaigne e Henri James nos propiciaram os princípios de uma
transcedência laica, secular.
Sabedores que preces são enfermidades da
alma e crenças são enfermidades do intelecto, estamos contigenciados a
construir uma transcendência laica, não divinatória, secular. De nós sobrará
lapide ou pote de pó, ou nome de rua, uma canção composta, talvez uma
contribuição maiúscula, ou uma idéia genial, eventualmente uma criação enriquecedora,
o que quer que seja... Esta é a nossa minúscula possibilidade de transcender
aos tempos de existência sobre a face da Terra que nos é concedido por nosso
patrimônio biológico.
O homem jamais
engoliu o fato de vir a morrer. Por isso, inventou milhares de deuses imortais.
Jamais evidenciados.
A Mão Direita de
Deus já foi amputada e ninguém sabe onde Deus está, afirma Emily Dickinson.
É com todas essas
asseverações emitidas com total convicção que apresento um inventário do que
colhi na messe da alta Cultura Ocidental como testemunho de minha pessoal
evolução neste Senado da inteligência mineira que é o Instituto Histórico e
Geográfico de Minas Gerais.
Aqui encerro esta
apresentação, em oferta plena de sabedoria.
Este é o
momento de agradecer a todos os amigos e associados que contribuíram com seu
talento, seu trabalho e sua pecúnia nestes três anos de gestão que ora se
encerram, não citarei nomes pois seriam pelo menos três dúzias de colegas a
serem lembrados. A todos muito obrigado.
Para meu sucessor, o Presidente Engenheiro
Fernando Antônio Xavier Brandão, forneço, com Shakespeare, uma recomendação:
Cada
fato que acontece é à idéia tão avesso
Que os planos ficam sempre insatisfeitos;
As idéias são nossas, não os feitos.
Verum, pulcrum et bonum. Verdadeiro, belo e bom.
Nunca falta o quê e
que escrever.
Fica escrito.
Viva Minas Gerais.
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