terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Exórdio - Para inicio de conversa


Exórdio


 
Para inicio de conversa

 

Marco Aurélio Baggio

 

         Alguns amigos pediram para que publicasse na Revista do Centenário preceitos e elucubrações que venho depurando.

         Privilegiados leitores:

         A sociedade justa é a barreira, o baluarte que nos defende da brutalidade da natureza e nos protege da disrupção causada pela biologia degenerada, de que é dotada parcela da humanidade.

         A sociedade civil é o edifício apolíneo que suplanta e prevalece sobre a barbárie que insurge, insistente, em toda parte. É a organização social que contém o caos que se manifesta na natureza. Seus dispositivos de contenção – policiais, jurídicos, psiquiátricos, assistenciais e outros, é que fazem contraponto à delinquência e ao crime.

         O assassinato mora no coração do homem. A espécie Homo sapiens sapiens ainda não se extinguiu pelo fato de que, mais poderoso, vigora o mandato: - Não matarás!

         A superpopulação, no entanto, força e arromba o tecido social e, de alguma forma medonha, torna a vida humana uma coisa barata e descartável.

         É no âmbito da sociedade organizada que vicejam os homens bons, cordos, aqueles, exatamente, que passam a empregar suas impulsões para as nobres finalidades indicados pelo nous - pelo intelecto.

         Esse inventa tecnologias que expandem o conforto e ampliam o modo de ser dos homens. Inteligência cria cultura, essa dimensão excelsa que compassa a amena e boa convivência entre tantos iguais – desiguais.

         A cultura torna-se uma calda, um meio que permite o salutar estar junto com tantos, irmanados em fazeção do bem comum.

         A indiferença da sociedade capitalista afluente para com os pobres – os deserdados da terra, os ofendidos e os humilhados, os insultados e os despossuídos de qualquer dotação -, sua negação de quinto sexto avos da humanidade, torna a sociedade capitalista injusta, indigna e, no limite, sombria.

         Em uma sociedade que, ao final, tem excesso de tudo: de alimentos, de crimes, de carros, de bebidas e de drogas, de repolho e de pôr–do–sol, de recordes, de lixo, de bugigangas e de eletrônicos, e, também, de dinheiro entesourado, até sobra o amor a bom mercado.

         Falta o quê?  Tantos indivíduos, tanta gente sobrenadando em movimento browniano, gastando o tempo e a vida fútil, inutilmente. Falta cola, falta cimento, falta o bom aglomerante que faça a junção bem articulada dos muitos componentes que são as partes constituintes do ser humano. Esse ligante, do qual carecemos em quantidade suficiente, é a cultura.

         Nela comparece o fato de que integrar-se e relacionar-se é amarrar diferenças e, às vezes, até, solucionar contradições.

         Somente o Eu criativo compõe possibilidades e incompatibilidades, produzindo o novo, o belo e o útil. Assim, possibilita a expansão da autoconsciência do sujeito. Consciência é o todo momentâneo, incisivo e arguto, de nossa vida psíquica.

         É ela – a consciência lúcida e instrumentada – que empregamos para arrostar e superar os escolhos, as vicissitudes e as descortesias com que nos trata a vida.

         É o desejo de ser criativo e explicito que nos arranca de nossa atávica tendência ctônica à mesquinharia e nos impede, decisivamente, que façamos o mal ao próximo.

         A cultura utiliza-se de três grandes ingredientes. A saber:

         A realidade, que primeiro se impõe ao sujeito e que se apresenta tantas vezes como ordem fundamentalista ou como lógica de imanência – a terra, a honra, o mercado, o rei, a guerra, o deus, o existencialismo, o socialismo, a história, a ciência, o nada, a revolução, o espetáculo, - entre tantas outras lógicas já derruídas.  Tais ofertas de realidade sempre se apresentaram como capazes de abranger toda a complexidade da vida humana. É hora de desacreditarmos de todas estas propostas de imanência, uma vez que cada uma delas aparecem em um ciclo de surgimento, moda, crescimento, acreditamento, seguido de decadência. O que sobra de cada uma delas é um pálido resíduo que se torna um mero componente de uma complexidade. Esta sim, uma lógica que talvez nos permita compreender o que é a missão da vida sobre o planeta: subsistir e complexificar-se.

A realidade é quarta instância psíquica. Sólida como uma parede, no entanto, tantas vezes ela cede, desaba, desmancha-se no ar.

         A verdade é dama de muitas faces, sempre requestrada, comparece em sua variabilidade constante. O Ocidente constituiu-se com o maior dos filósofos. Platão estabeleceu o ideal da busca da verdade como o centro de seu sistema. Está-se a constatar, com tristeza, que a verdade é sempre parcial e provisória. Ela se apresenta sempre como uma brilhante configuração de caleidoscópio.

         A liberdade, maior dotação do Ocidente a seus cidadãos é, na bem apanhada formulação de Lope de Vega el bien mayor de la espaciosa tierra.

         Cada qual emprega a franja de liberdade de que é dotado para validar a força de sua vontade de fazer acontecer o bem comum.

         A liberdade é o recurso de esperteza e de movimentação que dispomos para driblar as aprontações do Destino – seja ele Moira – destino pessoal caracterológico inexorável -; seja ele Ananké  - poder irresistível das leis da natureza -; seja ele Nêmesis - deusa da vingança e da justiça distributiva, guardiã da ordem universal -; seja ainda, Eris, a azougue menina diabrete dispersora malévola de tudo, deusa da discórdia e da sedução corruptiva.

         É ela, a cultura, que como um cadinho, acolhe esses todos componentes díspares, os mistura e coze, e deles todos debocha e transforma em tempero. Em panela da pobre humanidade, em panela que acolhe os pobres negócios humanos, quase tudo quanto há é tempero.

         A vida é dádiva a nós doada graciosamente. É tão extraordinária quanto declinante.

         Sabe-se que na vida muito é para ser suportado, pouco para ser desfrutado.

         Ser complexo, o homem é sujeito e objeto de sua própria busca. Só a ingentes esforços torna-se, eventualmente, plenificado. Este, aliás, a meu ver, é o objetivo de sua vida. Realizar suas boas potencialidades é o que o capacita a comandar a si e fazer a massa do mundo rodar, para cumprir os bons desejos da gente.

         Nossa cognição tornada nous - intelecto, guia nossas impulsões através do ethos – tomada de atitude diante da vida – da consciência moral rumo ao bom proceder ético.

         É assim que, apolíneos, dotados de seta, de intenções retas e de visão aérea, esguichamos em poesia, em ficção, em literatura, em arte, em civilidade. Em cultura, por definição.

         Sim, pois o que realmente importa a cada um, dotado de uma natureza irascível e indócil é:

- Como gerir a própria vida?

         A natureza é um espetáculo incessante de comidos e de comedores. Ela é uma cadela cruel, nossa inexorável inimiga, situada no interior de nossa mesmidade. No fim, termina nos vencendo.

         Nosso dever ao viver é protelar, tanto quanto possível, sua chacina.

         Por isso, aprendemos que a função do amor é abrandar a crueldade das fatalidades.         As delicias e as artes do amor podem, por vezes, corrigir os desaires da natureza.

         O principal recurso de que dispomos para aquietar as estupidezes do destino e compassar os desacertos da natureza é sermos bondosos uns com os outros.

         Para isso, somos forçados a abdicar de nossa crença na imortalidade. Temos que elaborar todo o desacorçoante peso de nossa carnal e mortal condição.

         Essa é, a meu critério, a sexta mutilação narcisica que sofremos. E assim, coxos temos de continuar vivendo com decência e dignidade. Sabemos que estamos sós em um Universo frio, infinito e indiferente às nossas ilusões.

         A vida em um mundo superpovoado de despossuídos é um drama, onde insurge a atração à práticas barbarizantes. Nós, os homens bons, batizados nas águas da cultura, buscamos refazer as teias e reatar os vínculos, construindo a decência social por meio de ações inteligentes que dignificam as pessoas.

         Se a política é sem entranhas, se a política é inconsistente e ainda, se a política é desumana, como querem sérios autores, temos que dispor de homens capazes de tornar decisões com base no mérito do caso particular em pauta.

         Temos, sobretudo, a obrigação de sermos otimistas, de acreditar que o ser humano é perfectível.

         Apesar da onipresença do crime, as coisas funcionam na sociedade, porque mãos hábeis e cabeças virtuosas fazem escolhas acertadas. Derivada do caos, para além dele, a ordem acaba restaurando-se.         Mesmo que provisória e precariamente.

         Temos que encontrar e oferecer amplos canais para expressar as emoções negativas que pululam em nosso infernal mundo interno.

         O homem é bicho–mau que, deixado a seu próprio alvedrio, desprovido de controles sociais, e sem um arguto superego internalizado, precipita-se em uma regressão à sordidez barbárica. Os corpos jovens, atassalhados e malaxados numa via, num morgue... Enchendo uma fria estatística, são os clamorosos testemunhos disso. A infantaria sempre paga um preço maior nos embates de qualquer ordem.

         A identidade do indivíduo/pessoa viceja com o conflito e com a oposição que encontra. A consistência, o estofo da pessoa é feito de lutas pessoais internas.

         A repressão sexual é necessária pois cria significado e propósito. Já a repressão da agressividade dispersa cria conduta adequada e construtiva.

         A liberação sexual, nosso enganoso milagre, obtido a partir dos anos sessenta, termina em torpor, lassidão e inércia. E também em dissolução dos costumes. A liberdade indócil é domada pela própria desgraça.

Toda competição com o destino – não importa o resultado – é  divina. Quando não se bebe nas capitosas fontes da cultura, a vida ensina com pancada, com violência, de forma aleatória e não sistemática. Caluda para não vir a ser você, homem, um ser em ruínas. Pois até o bem, quando sobe ao próprio excesso, morre por ser demais. E bala é só um pedacinho de metal.

         É necessário trabalhar para dar à luz a seu próprio pai na sua adultez madura.

         Os únicos que serão lembrados são aqueles que foram grandes na proporção da grandeza daquilo com que lutaram.

         O capitalismo nos convida e nos envolve com suas tentadoras ofertas sedutivas, caprichando em nos tornar meras máquinas digestórias de entropia. Quer nos tornar seres ruminantes, dotados de quatro estômagos  - pança, barrete, folhoso, coagulador -,para digerir... consumo conspícuo e lixo midiático.

         Disso resistimos, postados no centro da corrente do rio das humanidades, seres de aspiração transcendentais que somos.

         Cervantes, Shakespeare, Montaigne e Henri James nos propiciaram os princípios de uma transcedência laica, secular.

Sabedores que preces são enfermidades da alma e crenças são enfermidades do intelecto, estamos contigenciados a construir uma transcendência laica, não divinatória, secular. De nós sobrará lapide ou pote de pó, ou nome de rua, uma canção composta, talvez uma contribuição maiúscula, ou uma idéia genial, eventualmente uma criação enriquecedora, o que quer que seja... Esta é a nossa minúscula possibilidade de transcender aos tempos de existência sobre a face da Terra que nos é concedido por nosso patrimônio biológico.

         O homem jamais engoliu o fato de vir a morrer. Por isso, inventou milhares de deuses imortais. Jamais evidenciados.

         A Mão Direita de Deus já foi amputada e ninguém sabe onde Deus está, afirma Emily Dickinson.

         É com todas essas asseverações emitidas com total convicção que apresento um inventário do que colhi na messe da alta Cultura Ocidental como testemunho de minha pessoal evolução neste Senado da inteligência mineira que é o Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.

         Aqui encerro esta apresentação, em oferta plena de sabedoria.

         Este é o momento de agradecer a todos os amigos e associados que contribuíram com seu talento, seu trabalho e sua pecúnia nestes três anos de gestão que ora se encerram, não citarei nomes pois seriam pelo menos três dúzias de colegas a serem lembrados. A todos muito obrigado. 

Para meu sucessor, o Presidente Engenheiro Fernando Antônio Xavier Brandão, forneço, com Shakespeare, uma recomendação:

          

Cada fato que acontece é à idéia tão avesso

         Que os planos ficam sempre insatisfeitos;

         As idéias são nossas, não os feitos.

 

         Verum, pulcrum et bonum. Verdadeiro, belo e bom.

 

         Nunca falta o quê e que escrever.

         Fica escrito.

             Viva Minas Gerais.

        

  
       Revisto em 15-1-2011   10 – 1- 2014